quinta-feira, 27 de julho de 2017

O jeito franciscano de não ter cargo de mando


Nas Crônicas de Salimbene de Parma temos o relato: “Também Frei João de Parma, sendo Ministro Geral, quando se tocava o sino para limpar os legumes ou verduras, ia aos grupos de trabalho do convento e trabalhava como os outros irmãos, como muitas vezes vi com meus olhos. E porque me era familiar, eu lhe dizia: “Pai, vós fazeis o que ensinou o Senhor: Quem é o maior entre vós faça-se o menor, e o que precede como quem serve” (Lc 22,26). E ele respondia: “Assim devemos cumprir toda justiça, isto é, a perfeita humildade”. Também participava do ofício eclesiástico dia e noite, principalmente das Matinas, das Vésperas e da missa conventual. Tudo o que o cantor lhe pedia, fazia-o imediatamente, iniciando as antífonas, cantando as leituras e responsórios e rezando as missas conventuais” (Slb 44).

Num mundo onde existe competição, excesso de status hierárquico, sedução do poder, domínio e ostentação do cargo de mando, vale este jeito franciscano de servir. Ter um cargo não é ter poder, mas serviço. Serviço como a ação generosa de se dar, uma ação esplendorosa de disponibilidade humilde, generosa, cheia de cordialidade. Fazer na pura gratuidade, no modo de doar-se livremente, voluntariamente, na oferenda do fenômeno chamado amor.

Não é ter cargo de mando, mas estar na ação espontânea de ser útil, ser capaz de estar à altura de uma grande ou pequena ação feita na boa vontade. É aquele que tem no servir o espírito do serviço. Servir é eliminar a superioridade. Não é ser maior ou melhor, mas é dar-se sem conotação de domínio, de imposição, de exploração e de poder. É a original doação do simples, capaz de um trabalho humilde.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Francisco de Assis, visitado pelo Senhor


Diz a Legenda dos Três Companheiros: “Quando, já refeitos, saíram de casa e os companheiros todos juntos o precediam, indo pela cidade a cantar, ele, levando o báculo na mão como senhor, ia um pouco atrás deles, não cantado, mas meditando com mais diligência. E eis que subitamente é visitado pelo Senhor, seu coração fica repleto de tão grande doçura que ele não podia falar, sentir nem se mover, e nada mais conseguia sentir ou ouvir, a não ser aquela doçura que de tal modo o alienara dos sentidos corporais que, - como ele disse posteriormente – se naquele momento tivesse sido todo cortado em pedaços, não teria podido mover-se do lugar” ( 3Comp III, 3-4 ).

Em muitos e muitos momentos de sua vida, Francisco de Assis entrou num recolhimento necessário. Saiu dos tumultos do mundo para concentrar-se em estar mais perto do seu  Senhor. Numa busca fervorosa, as respostas vão tornando-se mais claras. É uma passagem mística! E a passagem mística significa de uma experiência que se tem escolher com mais intensidade, escolher o melhor, escolher com exatidão o que é o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar e recolher-se mais na exatidão do que o Espírito do Senhor está pedindo. É o instante de intimidade que irrompe no coração.

Ser visitado pelo Senhor, ser visitado pela inspiração, ser visitado pelo amor. É aquele momento que instaura uma vontade de existir na doçura do Senhor. A partir de então, Francisco de Assis fala com a suavidade do Senhor. Doçura é contraste com a aridez, doçura é contrário de vazio, do sem sentido. Ao encontrar o instante da graça que toma conta de todo ser, Francisco de Assis procura não perder este momento, e guarda o suave, hospeda a calma e, na serenidade, tem as melhores palavras, atos e presença. Na paz que isto traz percebe melhor a verdade de todas as coisas. Começa a falar com a tranquilidade do Senhor. Vai mais para dentro de si, torna-se rigoroso na busca, mas muito cordial com tudo e todos. Encontra a nova medida do agradável. Experimenta o serviço abnegado ao desprezível.

Ser visitado pelo Senhor é a doçura do enamoramento, a medida exata do modo de amar, servir e trabalhar; é ter a coragem de ser diferente, de ser despertado por uma grande afeição. Ser visitado pelo Senhor traz para Francisco o sabor suave da vida. Atentos a esta experiência vamos também experimentá-la em nós.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 3 de julho de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E A ESMOLA



Na Vida Segunda de Tomás de Celano temos o relato: "Noutra ocasião, na Porciúncula, ao voltar um irmão de Assis com esmola, já próximo de cemitério, começou a prorromper em canto e a louvar o Senhor em alta voz. Tendo-o ouvido, o santo salta de repente, corre para fora e, tendo beijado o ombro do irmão, coloca o saco em seu próprio ombro e diz: 'Bendito seja meu irmão que vai com prontidão, pede com humildade e volta alegrando-se'” (2Cel 76).

No início da Ordem havia o frade esmoler. Saía pedindo esmolas para ter o que partilhar com a Fraternidade e com os pobres que batiam as portas das Fraternidades. A esmola, no período medieval, podia ser a ostentação de quem tem e podia dar, como a superação de todos os entraves daquele que ia pedir. Dar e receber comportam valores. O Evangelho é claro quando diz: "Recebeste de graça, de graça deveis dar” (10,8). Pedir era um exercício de extrema humildade. Dar era o exercício de colocar em comum. Francisco ao ver o irmão voltar cantando e louvando sabe que este está feliz pelo dever cumprido de pedir para suprir as necessidades dos que precisam. Sai em direção ao irmão num salto de acolhimento, gratidão e reconhecimento. Beija os ombros que suportaram o peso das coisas carregadas. Esmola é prontidão em perceber as necessidades; é a humilde receptividade do pedir e receber, é a alegria de ver o amor transformado em gestos concretos de comunhão de palavras, presença e de bens.

FREI VITÓRIO MAZZUCO