sexta-feira, 20 de abril de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 9


Libertação é dar um passo 
concreto à necessidade do outro 


A violação dos direitos das minorias não é casual, é permanente. Além de serem zeros econômicos e não serem contemplados em planejamentos oficiais, sofrem a violação da dignidade através das ridentes formas de estereótipos. Recebi um post muito pertinente que diz assim: “No dia 19 de Abril, por favor não cantem a música da Xuxa, não pintem seus alunos e nem façam cocar de papel. Não reforcem os estereótipos! Convidem um indígena para falar ou leve as crianças em uma aldeia. Nos ajude a desconstruir estereótipos, nos deixem falar!” É verdade! Chega de representar! É preciso sair do egoísmo, do comodismo, da alienação e ir conhecer a realidade. Estereótipo é falta de cultura e ausência completa de postura crítica. Adianta criticar mendigo vagabundo se não conhece os motivos dos moradores de rua?

Francisco de Assis largou o conforto da privilegiada classe dos novos ricos de Assis e foi viver entre os mendigos da cidade. Ele não apenas os viu, ele se inseriu. Libertação é dar um passo concreto à necessidade do outro e não ficar em análises vazias. Já vi gente vociferar contra Bolsa Família, mas não sabe onde está o mapa da fome deste país. Libertação não é ideologia, mas é conhecer mais para denunciar melhor a opressão e urgir um processo de quebrar aquilo que prende irmãos e irmãs na miséria. Já vi muita gente criticando a sopa dos pobres sentado à mesa do McDonald's empanturrando-se de três hambúrgueres com chedar. Libertação não é metáfora, mas processo histórico para superar uma história. Francisco de Assis fez a libertação da acomodação para uma participação junto aos necessitados de seu tempo. Fraternidade para ele é sair do eu-sozinho para a solução de muitos entre muitos.

Francisco de Assis é santo porque lutou para produzir mais humanidade. É o santo do espaço no qual os simples se reúnem e a partir da Palavra ajuízam a vida. Partilha fraterna, ajuda mútua faz a Palavra ser prece e prática. Ele é um convertido que não levantou paredes de uma capela na solidão de seu projeto, mas pediu que muitos trouxessem tijolos como uma bênção. Não pediu dinheiro, pediu bênção em forma de tijolo, mãos calejadas e a força de muitos.

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FREI VITORIO MAZZUCO

quarta-feira, 18 de abril de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 8








A dimensão maior da pobreza é ter em comum


Em oito séculos, o franciscanismo vai vivenciado as experiência de onde surgiu: a forte experiência religiosa espiritual e a inserção em meio ao povo. As suas fontes formativas revelam a reflexão de uma prática. A espiritualidade e a teologia franciscana vieram depois de anos de caminhada nesta experiência. Frades esmoleres saíram mendigando para ajudar os que necessitavam. Ao estar entre pobres para dividir o que recebiam percebem que há uma miséria que afeta, aflige e crucifica os pobres. A esmola se transforma em denúncia e a pregação encontra o seu lugar: como viver o Evangelho entre os empobrecidos. Os frades primitivos começam a sentir que a experiência espiritual não é apenas o encontro com Deus através de um pobre que pede esmolas, mas o encontro com Deus se dá em compreender e procurar resolver a situação dos humilhados e ofendidos de seu tempo. Há uma indignação ética que leva o espírito a gritar: “Não é possível que isto esteja acontecendo, leprosos e miseráveis sendo expulsos para fora das muralhas das cidades!”.

Então, saíram pelas ruas de Assis, Perúgia, Espoleto, e tantos lugares, e nas praças e nos becos encontrar ali o espaço sagrado e poder dizer: “O Reino de Deus está no meio de vocês!”. Francisco de Assis e seus primeiros companheiros eram convertidos; convertidos de mudança de projetos pessoais e familiares, mudança de lugar social e dos sonhos da nobreza cavaleiresca e da corte, das conquistas de status e das terras. Vestidos de trapos eram homens novos. Morando em cabanas e grutas estavam dentro da história. O Evangelho da Libertação que entrou em suas vidas atinge todo o espaço da vida e não apenas o espaço da catedral, da sacristia e dos mosteiros. Eles amavam a Igreja que moldou neles páginas belas do cristianismo católico, mas não podiam deixar de evangelizar também estruturas eclesiológicas que estavam distantes do Evangelho. Assumem um lugar definido: do Evangelho para o pobre, do pobre para a libertação integral do humano e a opção pela Fraternidade como lugar da vivência desta escolha.

O decisivo desta opção é que implicou num modo diferente de vida: humilde, simples, desapegada, fraterna. Não se podia viver mais de uma postura que vinha dos resquícios feudais da opulência e autoritarismo, alguém mandando de cima para o debaixo obedecer; muda-se o lugar: um irmão de baixo vem para o lugar da única vontade: a vontade de Deus que valoriza cada pessoa e seu potencial transformador. A fraternidade acolhe a pessoa e a pessoa acolhe o modo da pobreza. A dimensão maior da pobreza é ter em comum; para ter em comum é preciso sair do egoísmo, do comodismo, da acumulação e da intransigência. A pobreza os tornou livres para dar passos sempre para frente, sem voltar para trás. Libertação é entrar no processo de desfazer os nós que prendem e sufocam a realização humana. A Pobreza Franciscana não é uma metáfora, mas um processo histórico de libertação e superação; sair do eu sozinho para um fraterno modo de inserção em meio ao povo. Fraternidade é construir lugar para mais humanidade. Ajudar irmãos e irmãs a serem pessoas fortes que participem de um forte destino coletivo: concretizar o sonho de Jesus, o Reino de Deus.

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FREI VITORIO MAZZUCO

quarta-feira, 11 de abril de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 7


Evangelho da Libertação mostra
 a fusão entre práxis e fé

Francisco de Assis transformou a história com os meios do Evangelho da Libertação na direção de uma maior participação e imersão na vontade de Deus para uma maior humanização. Ao vivenciar bem Assis reconstrói o todo de um processo histórico; junto com ele há companheiros, há partilha, há despojamento, há luta, há forte vivência que não abandona o eclesial e o social. Por detrás desta sua experiência há um sonho de fraternidade e não sumas teológicas medievais. Ele retoma, a partir de um momento de iluminação e animação, em frente ao Crucifixo de São Damião, as práticas da Igreja primitiva. Para a fé ser verdadeira é preciso ter tudo em comum. Havia uma acumulação escandalosa em poucas mãos: na nobreza, nos mercadores, nos reis e imperadores, nos papas e bispos, e em muitos mosteiros de então. Francisco vai pedir esmolas, repartir a esmola, fazer tudo passar pela prática solidária, de dar comida aos leprosos, abrigo e abraço, trabalhar com as próprias mãos junto aos camponeses

Com gestos pequenos e grandes faz um caminho de conversão pessoal e de conversão das estruturas. Sua oração e pregação são um convite ao louvor e a ação. Suas cartas e escritos instauram consciências, seu modo de ser transforma. É uma forma de ser cristão segundo a sempre nova forma do Evangelho da Libertação; é um novo rosto da fé e fraternidade encarnada em muitos seguidores e seguidoras que vão chegando aos poucos. Ele não rompe com o modo de ser religioso de então, mas procura um novo modo. Se no Evangelho da Libertação Jesus caminha pelas estradas da Palestina, ao refazer o caminho do Mestre, Francisco faz um enraizamento em tantos lugares dos caminhos de Assis, da Úmbria, da Itália, do oriente. Se está na estrada percebe o que está na estrada e nas cidades. Sua pregação parte do Evangelho e da violência feita contra os humildes e chagados de seu tempo. Criou suas Fraternidades com sentido de partilha e prática participativa. Soube viver nas cidades, nos campos e nas margens. A margem é o lugar onde a vida é mais exigida, mais sofrida; onde já no século XIII, o sistema econômico, social e político colocava à mostra toda a sua capacidade de ambição, de avareza, ostentação, dominação, iniquidade e guerras, deteriorando assim todas as formas de vida. A margem sempre lançou um desafio ao centro. Dos campos periféricos do vale de Espoleto havia milhares que batiam às portas e pediam apenas uma coisa: ser reconhecido como pessoas! Francisco descobre em todos o Cristo Irmão, e o Irmão e Irmã cristificados.

A vida de Francisco de Assis é uma releitura bíblica. Coloca a Palavra nas mãos dos simples que a ouvem, leem e meditam nas bases fraternas. Onde o povo vê a Palavra vivida e convivida vem e se une. O franciscanismo vai escrevendo sua história das páginas do Evangelho às páginas da vida. Todos tomam a Palavra e se tornem Palavra. O Evangelho e sua hermenêutica já não era mais monopólio de peritos. Já não existe mais vida de um lado e fé do outro lado. O Evangelho da Libertação mostra a fusão entre práxis e fé.

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FREI VITORIO MAZZUCO

quinta-feira, 5 de abril de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 6


No Presépio de Francisco cabem tudo e todos, sim!


Em Greccio, quando em 1221, fez o primeiro Presépio, colocou ali um Deus descido da Cruz de São Damião e misturado na paisagem dos simples. No Presépio de Francisco cabem tudo e todos, sim! Camponeses e pobres, sofridos e os considerados heréticos, os esquecidos nas montanhas da Úmbria e os que sabiam o que era a fome, o frio no forte inverno. Os que não tinham a palavra no presbitério, mas que podiam, em meio a um bosque, proclamar a Palavra Encarnada. A missão da Encarnação reencanta a dimensão religiosa, mostra uma salvação integral, espírito e corpo.

No Presépio, Francisco fez os povos crucificados celebrarem sem a cruz do sofrimento, mas na alegria de sonhos e esperança. É a ortopraxia leve e feliz numa paisagem de encontro de mundos. Ainda bem que os que crucificam o povo, não estavam ali em Greccio, e nem foram reclamar com o Cardeal sobre o escândalo do Presépio e de Missa, dizendo que ali não é lugar para mostrar os desníveis do mundo. A ortodoxia não sabe ver a beleza real da paisagem porque tem olhar afunilado para o exclusivamente religioso, e muitas vezes, na prisão dos conceitos, não sabe ver a fala real das coisas.

O franciscanismo abraça o Evangelho da Libertação inspirado no jeito que seu fundador, Francisco de Assis, que mesmo sem ter a pretensão de ser um teólogo, está entre os grandes teólogos da história do cristianismo; porque procurou entender o Evangelho a partir da realidade em que estava, sempre na direção da justiça e da fraternidade. A teologia de Francisco de Assis é o falar com Deus e falar sobre Deus; um Deus que se apresenta de um modo divino e humano encarnado em Jesus Cristo, o Deus Humilde e Pobre; é o Deus Altíssimo, o Grande e Forte, o Sumo Bem, o Senhor da Criação e das Criaturas, e de imensa ternura e misericórdia para com o seu povo.

Francisco de Assis volta o seu olhar para o alto e encontra-se com este Deus maravilhoso. Volta o seu olhar para o lado e encontra irmãos e irmãs. Volta este olhar para a linha que dividia a sociedade de seu tempo entre nobres, burgueses, plebeus e pobres, e encontra ofendidos e humilhados, os expulsos para fora dos muros das cidades. A sua fé o coloca no caminho e em meio aos ofendidos da história. É uma fé de compromisso cristão a partir do cuidado e da reconstrução da casa do coração, dos valores, do mundo e da Igreja. Uma fé que sai das nuvens para a terra e o faz andar com os pés bem fincados na conjuntura de sua época.

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FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 2 de abril de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 5


São Francisco de Assis e a Teologia da Libertação


Gostaria também de responder a uma colocação feita para mim numa assessoria que estava prestando, uma abordagem feita na pausa, com pergunta pertinente e capiciosa ao mesmo tempo: “Vocês, frades são todos TL, mas não percebem que o fundador de vocês era menos radical, ele era romântico, vivia entre pássaros e flores, banhava-se nas cachoeiras, amansava lobo, poupava lesmas pelos caminhos”.  Sim, meu fundador, Francisco de Assis, o santo do Irmão Sol e Irmã Lua, tem uma dimensão celebrativa da existência. E não há apenas romantismo nisto. Ele pode estar na beleza do natural porque afinou seu sensível olhar através do real.

Para Francisco de Assis existe vida celebrada, fé celebrada, realidade celebrada. Existe um texto que preciso retomar aqui: “Se é verdade, como disse um romancista em tempos sombrios de repressão nazista, de que pode haver situações em que falar de rosas parece constituir um crime, porque implica silenciar sobre tantos erros, é também verdade que para os cristãos, junto com o esforço de transformar a vida, há também um lugar para a celebração”. Realidades da fome, do empobrecimento, da exploração, dos atentados, das intervenções, da morte precoce de tanta gente, de tudo o que o mundo e o nosso país hoje enfrentam, não pode deixar ninguém indiferente. O jeito franciscano não é indiferente e se faz um grito profético. Viver, celebrar e falar é instaurar uma reflexão que impacta, que suscita debates, rejeições e críticas e também entusiasmos. No meio de tudo isto importa não perder a questão fundamental e manter a suficiente serenidade para ver as coisas se um modo bem claro, e não no embotamento das mídias.

Francisco de Assis não ficou apenas à mercê de análises sócio-teológicas, um ponto de vista vindo de fora. Ele se envolve lá onde está o povo com jeito penitente e pedindo mudanças. Ele não é apenas um homem que fez um caminho de santidade e ficou na lembrança das ladainhas. Ele torna-se um fato, um acontecimento. Foi para dentro da eclesiologia de então e saiu dos limites da Igreja para se tornar um fenômeno público da cristandade medieval e moderna.

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FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 26 de março de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 4


Não basta estudar teologia; é preciso ser teólogo


Francisco de Assis transformou a fé num ato profundamente humano. Mostra a essência do Evangelho: ter fé é humanizar a vida. O único e verdadeiro conhecimento de Deus é o que está na Boa Nova, um Deus que sabe amar, que leva a amar, que convive entre atos concretos de amor. Francisco é um grande teólogo, embora não tenha estudado na UCP, Universidade Católica de Perugia, porque intui que não basta conhecer ou estudar teologia, é preciso ser teólogo.

O verdadeiro teólogo é aquele que desce com tal profundidade no cotidiano que começa a ver Deus em tudo. Ele foi considerado um Renovador Eclesial, mas isto não é tão excepcional assim, embora o jeito conservador não aceite, a Igreja sempre viveu de muita renovação. E de onde vem esta renovação? Porque há momentos que ela sai do circunscrito mundo de seus líderes e pessoas com carismas próprios e vai ao carisma do povo.

Francisco, ao ir ao povo com a força do Evangelho, faz uma volta às origens da História da Salvação. Porque a Palavra narra o que existiu antes da Palavra: um amor misericordioso de Deus e a vida do povo. Ler  e estar  na história sob o filtro do Evangelho, viver o Evangelho que estava na história, uma história que foi celebrada, rezada, virou culto, fraternidade, comunidade, memória dos fatos e espelho da Palavra de Deus. Francisco de Assis, com seu jeito, fez uma releitura bíblica reconstruindo lugares eclesiais e sociais.

As muitas guerras de seu tempo, o confronto entre nobres e plebeus, o conflito entre imperadores e papas, as Cruzadas, a estratificação social que dividiam maiores e menores, novos ricos e cidadãos em geral, camponeses, pobres, doentes e miseráveis, também gerou realidade de fome, de empobrecimento, de exploração e morte. Isto não deixou Francisco indiferente. O seu modo de viver o Evangelho em meio a tudo isto não é só uma pregação, mas um grito de alerta.

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FREI VITORIO MAZZUCO

sexta-feira, 23 de março de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 3


Fé e realidade não se separam


O Evangelho transformou o mundo a partir do tempo de Jesus e a pergunta é: como vamos fazer isto a partir deste tempo em que estamos vivendo? Estar numa Ordem é ajudar a ordem mais espiritual e social do mundo. Olhar o mundo e perceber que estamos numa sociedade que produz desnível de classes, produz o pobre e produz esta insatisfação toda que aí está. No tempo de Francisco de Assis não era diferente. Ele não foi em direção à riqueza, mas sim onde estava a Fraternidade.

A vivência fraterna existe para alimentar participação, cuidado e justiça. Isto não é apenas uma fundamentação sócio-política, mas um ideal cristão que mantém o projeto de Jesus, a transformação do mundo em Reino de Deus. Fraternidade não é apenas querer uma sociedade rica ou pobre, mas uma sociedade justa e solidária. Sem isso, do que adiantaria uma fé cristã professada e proclamada entre desmaios do espírito me dizendo: “aqui TL não entra!”. Claro que não  quero entrar no transe alienado que não vê desmaios de fome. Fé é encontro com a realidade colocando nela o sonho sagrado de Deus. Fé e realidade não se separam.

Nós queremos modernizar o nosso modo de crer e não vemos que a sociedade moderna separa riqueza de um lado e pobreza do outro. Diz que o marginalizado, o excluído, o fora das possibilidades é um ignorante. Francisco de Assis também foi considerado um ignorante porque se vestiu de pobre e marginalizado e foi lá cuidar dos excluídos, porque a estrutura feudal de seu tempo também gerou miséria. Francisco de Assis não era um ignorante, mas diferente. Sabia muito bem quem estava produzindo desigualdade e não quis ser igual aos iguais privilegiados.

A experiência de Francisco de Assis é muito rica e não se esgota num único aspecto; se bem que, talvez, muita gente gostaria que ele se reduzisse a viver atrás do balcão da loja de seu pai Pedro Bernardone ou então fosse viver a intensa e boa experiência de vida monástica. Francisco de Assis imerge na realidade da Úmbria e o seu modo de viver o divino, o religioso, o teologal é uma dimensão que atravessa tudo. Se ele nos legou uma espiritualidade e até uma teologia franciscana libertadora é por que experimentou, como diz Congar, “a gente só tem a teologia da própria prática”.

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FREI VITORIO MAZZUCO

quarta-feira, 21 de março de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 2

"O Evangelho não é apenas um texto bonito para ser lido"


Francisco de Assis fez uma rara aproximação com Deus abraçando o pobre com braços da Boa Nova. Abraçar o leproso, o maior ícone libertador de um processo penitencial e de conversão, foi um enlaçamento de vidas, um gesto profético, uma indignação ética, uma proximidade terna e vigorosa para mostrar que a exclusão é desumana e não agrada o Pai das Misericórdias. Abraçar o leproso foi mais que um encontro espiritual. Ali braços, lábios e rostos se entrelaçaram e apontaram o caminho de São Damião; e lá estava um Deus misturado no jeito abandonado das ruínas, um Deus despojado e crucificado.

A partir de então, Francisco de Assis percebe que a pobreza não é um indivíduo, mas um lugar social. A partir deste lugar ele sai para realizar um movimento de transformação pessoal e coletivo. Se existe o pobre é porque alguém ou uma estrutura produziu o pobre. Ele estava e vivia numa família e numa sociedade opulenta, e numa eclesiologia não menos opulenta. E não escolheu permanecer ali. Jesus Cristo não permaneceu na oferta feita pela tentação dos poderes de riqueza, segurança e adoração confortável. Jesus fez estrada nos empoeirados lugares da Palestina. Do estábulo de Belém, do jeito caseiro de Nazaré, para uma imersão no mundo dos que mais precisavam da presença de quem sonhava para este mundo o Reino. O leproso representa os paralíticos e cegos, os raivosos fariseus, a viúva de Naim, o Lázaro que volta à vida, a pecadora condenada que ia ser coberta de pedras, os doentes e exluídos do tempo, que só podiam contar com sua presença, toque, palavra e cura. O Evangelho não nasceu apenas dos pergaminhos da Palavra; o Evangelho nasceu resolvendo a história, mudando vidas, proclamando a justiça, anunciando a paz e a libertação, concretizando Isaías, ampliando a Lei, derramando o sangue dos apóstolos e mártires, e trazendo o sadio para a existência.

Francisco abraçou primeiro o leproso que surgiu no caminho, e depois foi abraçar a cruz de São Damião, o marco indicativo e final de um caminho glorioso de ressurreição. O Evangelho não é apenas um texto bonito para ser lido e comentado; ele é um programa de vida para aqueles que querem abraçar um Deus sangrando por amor do mundo e da humanidade. A Vida e a Regra do Irmão e Irmã é esta, viver o Libertador Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO FILHO

quinta-feira, 15 de março de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 1



"Somos do Evangelho da Libertação!" 


As pessoas que interagem comigo nas mídias, de certa forma cobram uma palavra minha sobre a situação política que estamos vivendo. Não alimento o Facebook com opiniões sobre isso, porque considero o Facebook uma feira-livre onde se expõe de tudo e nem sempre com raízes reflexivas bem fundamentadas. É uma exposição de posts sem critérios, embora haja exceções, e ali também apareçam publicações precisas. Normalmente, partilho ali textos do meu blog: www.carismafranciscano.org.br, blog este que tem a finalidade de mostrar o olhar franciscano sobre temas necessários.  Mas aqui vou, então, manifestar o que penso, sob o filtro da inspiração franciscana, numa longa série de textos reflexivos.

O jeito da Minoridade vivida por tantos da Família Franciscana é renascer em cada lugar fiel a origem das três Ordens e suas frutuosas Ramificações. O jeito da Minoridade é ser menor e periférica. Muitos que me conhecem ou convivem comigo afirmam categoricamente ou perguntam: “Os frades são Teologia da Libertação? Ou dizem: “Todo frade, inclusive você, são TL”. Respondo sempre que, por inspiração divina e pela concretude de vida do nosso Fundador, São Francisco de Assis, somos do Evangelho da Libertação!

Então, o rótulo de TL, não soa para mim como uma pitada de ranço ideológico, mas sim como um elogio, uma honra e, um reconhecimento de oito séculos de tradição, prática e profecia. É orgulho e responsabilidade ser um “TL” por causa do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Vida e Regra o Evangelho da Libertação é o nosso ponto de partida. Todo Evangelho é a máxima transparência da prática libertadora de Jesus Cristo.

Nossa Ordem tem um caráter espiritual e social; e no cerne deste caráter pulsa uma fonte mística que motiva nossas práticas. Começo, antes de qualquer análise, a partir da mística e da espiritualidade própria do Carisma.

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FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 12 de março de 2018

Evangelização na Educação - Perspectiva Franciscana - Final

2.2 Como estar na educação

Nas Fontes Franciscanas, encontram-se vários elementos que qualificam São Francisco de Assis como “mestre de vida integral”. Narra-se acerca de muitos pequenos gestos de amor, cortesia, respeito, gratidão e bondade que atestam a sensibilidade de Francisco como educador e evangelizador.

Como educador e evangelizador, Francisco tinha a preocupação de, primeiramente, praticar o que, em seguida, havia de ensinar por palavras. Pois, uma educação libertadora requer coerência de vida com os valores que verdadeiramente libertam e promovem a vida integral da pessoa.

A presença franciscana no mundo, especialmente no campo da educação, caracteriza-se pelo modus vivendi, ou seja, pela sua maneira amorosa de ser e fazer todas as coisas. O educador franciscano valoriza cada pessoa na sua individualidade e nas suas múltiplas relações com os semelhantes, com todos os seres da criação e com o Criador.

Há muitos desafios como oportunidade de crescimento, de revitalização do carisma franciscano e do ardor missionário:
- Ser presença evangelizadora com valores franciscanos e com a qualificação humana e profissional que o serviço exige.
- Oferecer educação de qualidade aos professores, alunos e colaboradores, à luz da espiritualidade evangélica e franciscana, visando a formação integral e transformacional do ser humano e da sociedade.
- Criar mais espaços de encontro e diálogo intercultural e inter-religioso, respeitando as crenças, valores, aptidões e vicissitudes de cada pessoa.
- Dar mais visibilidade ao Carisma Franciscano nas entidades de ensino.
- Envolver sempre os educandos nos projetos de missão e solidariedade que desenvolvemos.
- Fortalecer as atividades pastorais: familiaridade com a Palavra de Deus, reflexões, retiros e celebrações litúrgicas e encontros de formação franciscana.
- O anúncio do Evangelho e do nosso estilo de vida às culturas profissionais, científicas e acadêmicas, como “encontro entre fé, a razão e as ciências, criando predisposições para que o Evangelho seja escutado por todos” (EG 132). Dessa forma, os espaços pedagógicos e acadêmicos tornam-se meios favoráveis à evangelização e à interação, acolhida e respeito às diferentes culturas.
- A cultura do encontro, da alteridade e do diálogo aberto e respeitoso com as realidades multiculturais e inter-religiosas, propiciando relações de reciprocidade e de promoção da unidade, da justiça e da paz.
- O uso responsável das novas tecnologias.
- As escolas e universidades como âmbitos privilegiados para pensar e desenvolver atividades evangelizadoras de modo interdisciplinar e inclusivo.
- Incluir o Projeto de Evangelização nas disciplinas institucionais (Estudo do Humano  Contemporâneo – EHC, Ética e Empreendedorismo).
- Apoiar, estimular e implantar o Projeto Virtudes e Atitudes.

Temos também alguns riscos e tentações:

- Estar na educação sem perspectiva de evangelização, sem referência da fraternidade, sem um projeto comum.
- Conformar-se com o neo-liberalismo que faz da educação uma oferta de mercado, seguindo a lógica empresarial.
- perpetuar-se nas funções com personalismo e inflexibilidade.
- contentar-se em dar um verniz franciscano à Instituição enquanto sua filosofia é dada por outros.
- não cair no tecnicismo, na competitividade voraz de lucratividade e produtividade.
- Não assumir com convicção uma identidade franciscana e católica.
- Fechar-se apenas na própria atividade e setor, renunciando a comunhão que torna o esforço mais eficaz.
- Não ir ao encontro dos que estão nas periferias existenciais e geográficas.

- Não trabalhar de maneira colegiada e faltar com a transparência nos procedimentos realizados.

CONCLUSÃO

Precisamos muito das motivações evangélicas e franciscanas no nosso Projeto Educacional. Nós estamos nos ombros daqueles que vieram antes de nós e nunca esqueceram desta verdade: fazer do franciscanismo na educação uma presença evangélica, mística e profética. Precisamos viver isto sempre de forma nova, com muita abertura para as surpresas do Espírito.

O franciscanismo é uma grande inclusão em meio à diversidade, é um dom para o mundo, uma tradição viva e verdadeira que atravessa séculos. Possui uma energia muito forte porque sempre acreditou na força das pessoas que se unem de modo fraterno. Continuemos com força e fé, neste sentir-se bem onde o Senhor nos enviou para servir anunciar a Boa Nova!

FREI VITORIO MAZZUCO