segunda-feira, 16 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS – ENTRE HISTÓRIA E A MEMÓRIA

Constantemente surgem livros sobre São Francisco de Assis. Indico para os que amam conhecer Francisco de Assis este livro de André Vauchez, Francisco de Assis. Entre História e Memória, Martins Fontes, SP e Instituto Piaget, RS, 2013.  O autor é um grande historiador, membro da Escola Francesa de Roma, é especialista sobre santidade e espiritualidade medievais. Esta sua premiada biografia sobre São Francisco de Assis tem forte fundamentação histórica e é exatamente a perspectiva histórica com que aborda São Francisco que faz o diferencial desta obra. O autor pesquisou por 30 anos, período em que viveu na Itália, os textos franciscanos e as biografias franciscanas. Como diz a quarta capa desta obra: “André Vauchez mostra a novidade e a originalidade da mensagem franciscana, a sua nova relação com a Sagrada Escritura, a sua ligação a Deus, à natureza e ao mundo”.

O autor passa pela bibliografia e pela cronologia e pelo Testamento de Francisco, que são obras essenciais para a fundamentação histórica. Diz o texto: "Uma obra que não teme reconhecer as dificuldades e os afastamentos em relação ao projeto inicial do Santo. Os frades menores, no seu conjunto e desde a sua origem, jamais traíram ou abandonaram a sua mensagem. Nenhuma Ordem religiosa conseguiu manter com seu fundador uma relação afetiva tão forte e escutar as suas palavras durante tantos séculos”.

Esta obra tem o mérito de ir à riqueza das Fontes Franciscanas. Muito se escreve sobre ele, mas em geral cada autor ou autora juga conhecê-lo de modo suficiente para interpretá-lo a seu modo. Assim, Francisco de Assis é visto sob vários aspectos: asceta, louco, poeta, estigmatizado, fundador de uma grande Ordem religiosa, modelo de ortodoxia católica, reformador da Igreja, herói romântico, “detentor de um cristianismo evangélico e místico esmagado pela instituição eclesiástica”, defensor dos pobres, promotor da paz entre os seres humanos e religiões, apaixonado pela natureza é o patrono da ecologia, santo ecumênico. Então, qual é o Francisco verdadeiro? Vamos ler mais esta obra! Ela traz respostas.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A PORCIÚNCULA DE SOROCABA


Meus confrades de Sorocaba, SP, levaram a sério a inspiração original de nosso Pai São Francisco: é preciso reconstruir a casa! E recriaram no pátio do Convento local uma réplica da Porciúncula. Bom Jesus dos Aflitos agora tem também a consolação de Nossa Senhora dos Anjos. A Porciúncula, onde estiver é manancial, este lugar fontal   da mística franciscana, um ícone do berço da Fraternidade. De Assis a Sorocaba é preciso lembrar a vida comum, o amor mútuo, o espaço da prece, da reflexão, do silêncio. É eremo, isto é, espaço para encher-se de graça e bênçãos e reiniciar novamente o caminho.

Se Assis é a capital do espírito, a Porciúncula é lugar necessário, uma luz sobre o caminho. Se você não vai à Assis, o fascínio da Porciúncula vem até você em Sorocaba. A mensagem pulsante do Evangelho, alegria, serenidade, simplicidade, fidelidade, pobreza...tem lugar. A Porciúncula original foi edificada no século X, no ano de 1045. Pertencia aos monges beneditinos do Mosteiro do Monte Subásio, que ali criaram uma pequena porção de santuário, para ajudar o povo que não podia ir nas peregrinações nos santuários mais distantes, podiam fazer a sua desobriga no lugar mais próximo. Santuário é o lugar sagrado onde a presença de Deus se manifesta, o mistério presente da divindade determinando o lugar do culto. No século XIII, os beneditinos doaram a Porciúncula a Francisco de Assis que a reconstruiu e fez um grande encontro entre passado e presente. Na Porciúncula viveu Francisco, os frades primitivos, ali passou Clara, ali morreu o Poverello, ali aconteceram os Capítulos das Esteiras.

A Porciúncula de Sorocaba nos diz que Clara e Francisco continuam mais vivos que nunca e que a sua escolha de Amor atravessa o tempo e marca definitivamente um lugar no mundo. Na Porciúncula a Fraternidade se faz encontro, cresce, contagia e se comunica. Como diz Tomás de Celano: “Em qualquer lugar, no entanto, conheceu por experiência que o lugar de Santa Maria da Porciúncula era repleto de mais copiosa graça e frequentado pela visitação dos espíritos celestes. Por isso, dizia muitas vezes aos irmãos: "Cuidai, filhos, para nunca deixardes este lugar. Se fordes expulsos por uma parte, entrai de novo por outra; pois este lugar é verdadeiramente santo e habitação de Deus. Aqui quando éramos poucos, o Altíssimo nos aumentou; aqui, com a luz de sua sabedoria, ele iluminou os corações de seus pobres; aqui, com o fogo de seu amor, inflamou as nossa vontades. Quem rezar aqui com coração devoto obterá o que pedir” (1Cel 106,2-6).


Em 1210, Francisco pede ao Bispo de Assis e depois aos Cônegos de São Rufino alguma igrejinha para cuidar. Não obteve resposta. Vai então ao Abade do Mosteiro Beneditino, Dom Teobaldo, e este, com o consenso da comunidade monacal, entrega a Porciúncula para uso e moradia dos frades, e pedem apenas uma condição: se o grupo de Francisco crescer, que a Porciúncula seja a Casa Mãe. Dom recebido, dom compartilhado. A igrejinha reconstruída sob o sólido alicerce da Pobreza ganha um sinal: por graça e gartidão com um vaso cheio de óleo ao bem feito pelos beneditinos, há o gesto da retribuição, cada ano, os frades mandavam aos monges um cesto cheio de peixes e os monges agradeciam com um vaso cheio de óleo ( 3Comp 56 e LP 8 ).

E assim a Porciúncula vai se tornando um ícone eterno da experiência primitiva do amor fraterno, do trabalho com as próprias mãos, da proximidade com bosques e leprosários, da pequena cela como moradia, dos primeiro encontro com o Evangelho, da presença dos primeiros companheiros, lugar de preparar-se e partir para a missão. No dia 19 de março de 1212 chega ali a nobre jovem Clara de Favarone. Em Julho de 1216, Francisco consegue do Papa Honório II a Indulgência da Porciúncula ou a Indulgência do Perdão da Porciúncula. Ali Clara e Francisco comum juntos num luminoso banquete espiritual (Fior 15). A amiga especial de Francisco Jacoba de Settesoli, traz o doce conforto na hora de sua morte (3Cel 37-39). A Irmã Morte vem buscar Francisco.

No século XIII, ali estavam os irmãos Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani e Egídio, prontos para sair em missão. No século XXI, aos 08 de setembro de 2017, oito séculos depois, os irmãos Gilberto Piscitelli, Benedito Gonçalves e André Becker, em Sorocaba, nos ensinam que todos temos que ser criativos em fazer renascer a simplicidade primitiva. E refizeram o ideal da Porciúncula: chegar, partir, enviar, sair, regressar, fortalecer, orar, num momento privilegiado de encontro. Em louvor de Cristo, Amém!

Veja mais imagens da Porciúncula de Sorocaba

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E SEU MÊS DE FESTA


Tem a celebração do Transitus, a Missa Festiva, o tríduo, a novena, o teatro, a semana franciscana, o mês franciscano, as exposições, momentos litúrgicos, festivos, litero-musicais, bênção dos animais, palestras, artigos e sermões, distribuição de taus, chaveiros, santinhos, frades de hábito, programas na rádio, televisão, enfim, Francisco de Assis é uma Festa! Um pobre celebrado com alto nível de intensidade litúrgica, espiritual, cultural e folclórica.

Celebrar Francisco é exaltar uma personalidade que atravessa as fronteiras da religião. Todos querem dizer quem ele é, porque ser ele mesmo foi a sua marca registrada. Num mundo onde nem mais sabemos quem somos nós, Francisco de Assis é revelador de uma identidade. A festa de São Francisco e o mês franciscano de outubro mexem com consciências, abala instituições, reencanta carismas e convoca criatividades.

Celebrar São Francisco é mostrar que desde o Concílio de Latrão até o Vaticano II ele é uma novidade necessária. Sozinho ele é um movimento vivo, com a força da Fraternidade ele é a revolução constante. E qual a sua força de mudança? Em primeiro lugar porque Jesus Cristo passa a ser para ele a fusão de alma, coração, vontade e projeto, e núpcias.  Em segundo lugar, o Evangelho sai do texto e entra no contexto de ser alguém numa palavra que anda e convive, simbiose entre espírito e letra.

Celebrar São Francisco é ter aquela vontade de ser eremita e andarilho. Elegante e mendigo. Desapegado e livre. Rico de amizades e pobre de materialidade. Este jeito de aprender a ficar só em meio a todas as criaturas e formar com elas um novo jeito de ser irmão e irmã que lança a solidão para a imensidão do estar junto. Ir à guerra sem pegar em armas. Ir para o diferente e dizer que há uma verdade no lado de lá.

Celebrar São Francisco é viver leve e solto em meio à Regra de Vida e ter este jeito de organizar tudo a partir da intuição. Com ele anarquia e democracia brincam de roda e instauram uma nova profecia. Celebrar São Francisco é mandar vir o doce preferido na hora da morte, reunir as pessoas amadas e cantar. Improvisar um coro, ensaiado ou não, e deixar a melodia tomar conta do ambiente: Ó Alma Santíssima que atravessa para a eternidade reunindo cidadãos e Anjos, e a Trindade dando boas vindas dizendo com a Irmandade: permanece conosco para sempre!

Celebrar o mês franciscano é escutar Francisco de Assis dizendo para todos: “Eu fiz o que é meu dever; que Cristo vos ensine o que é vosso!” (2Cel 214,9).

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 26 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - Final

Misericórdia é dar o coração aos mais fragilizados

Misericórdia é Vida Fraterna! Nós não somos apenas um ajuntamento de pessoas, mas uma consanguinidade espiritual que nos vincula uns aos outros. A Fraternidade nos conecta. Somos todos do mesmo DNA de Clara e Francisco, e este sangue que corre em nossas veias tem uma poderosa implicação humanística: compartilhamos uma mesma natureza humana e divina. Cor e miseratio! Misericórdia é chave para abrir e entrar na porta santa do Reino.

“O Amor de Deus é a flor e a Misericórdia o fruto” (Santa Faustina Kowalska). O fruto do Amor é a Misericórdia, tudo o que é Amor é Misericórdia. Misericórdia não é atirar pedras, mas estender as mãos; fazer pontes e não exclusão, atar feridas dos necessitados, levar o errado a enxergar o erro.

Misericórdia é dar o coração aos mais fragilizados (miseris cor dare). O Papa Francisco, inspirado em Santo Agostinho, coloca dois aspectos da Misericórdia: 1. O Coração é o centro 2. Uma situação miserável, seja material ou espiritual. A Misericórdia, que tem a sua fonte no Amor, é um Amor feito de Coração, exercido em presença de sofrimento ou desordem.

“Há o amor de pai e filho, o amor de casal, o amor de irmãos e irmãs de sangue, o amor de amizade, o amor de fraternidade, o amor de civismo, o amor de grupo, e tantos tipos de amor. Cada estilo de amor demanda e desperta na psique um estado peculiar de ação e sensação. Quando exerço o amor em direção a alguém em situação penosa, emito uma forma típica da alma, chamada Misericórdia. Este alguém em dificuldade posso ser eu, e aí há a misericórdia para comigo mesmo e pode ser o outro ou a outra, e aí a misericórdia para com o próximo.

Se eu amo a pessoa por quem estou apaixonado ou me deleito numa ocorrência de beleza e bondade, simplesmente amo. Mas se me dobro sobre alguém no buraco e lhe estendo o braço puxando-o para a situação normal, esse meu ato gratuito de restabelecimento da norma assume o nome de Misericórdia ou Amor Misericordioso. Para além da afetividade e da espiritualidade, a misericórdia tem a ver com o conceito físico e científico da ordem cósmica.

Digamos que a lei básica do universo é a ordem, ou seja, a união, a relação, numa palavra: o Amor. De outra forma, o universo se desintegraria. Tal ordem macrocósmica, que parte do pó atômico e chega às galáxias se, se reverbera em cada um dos seres existentes, chamados microcosmos, incluindo nestes o microcosmo humano que somos nós. Tal ordem ou união nada mais é que o Amor. Os conceitos de amor-união-relação-ordem se interpenetram”  (Marchionni Antônio, “A Misericórdia é Lei do Cosmo”, in Fraternidade e Misericórdia- Um olhar a partir da justiça e do amor, Cultor de Livros, São Paulo, 2016, p. 15).

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - V


 Francisco e Clara de Assis não venderam sonhos

Não há misericórdia em lutas ideológicas que chegam à violência. Não há misericórdia se não sair para as periferias existenciais que são mais do que bairro, rua, espaço de cidade ou campo, centros urbanos ou lugares de tensões. A periferia existencial é o vazio da vida, a falta de sonho, de utopias, de esperanças que está nestes lugares e nos corações das pessoas. Tem muita gente que tem mansão confortável, cheia de móveis luxuosos, freezers cheios de comida, dinheiro no banco e no luxo, mas sem felicidade ou projetos para dar a vida um sentido maior. Tem tudo, mas precisam de vícios e experiências traumáticas e excesso de antidepressivo. Há periferia existencial na pobreza material dentro das periferias materiais.

Tem que haver mais misericórdia nas Igrejas e aqui vamos incluir a nossa; pois religião não pode ser um produto bonito e bem embalado para ser divulgado e vendido. Francisco e Clara de Assis não venderam sonhos, nem esperança, nem Deus, nem religião. Nossas liturgias não podem ser um remédio psicotrópico relaxante, cheias de louvores emocionais e ardor neomísticos, mas com pouco Amor pela doutrina social da Igreja e pela mística do Evangelho que deseja conduzir o ser humano a uma experiência de esperança profunda e de uma humanização profunda. Menos gospel e mais proximidade com o doente, com a viúva, criança, idoso e portadores de necessidades especiais.

Somos evangelizadores, discípulos e missionários da Misericórdia e não cidadãos turistas que fazem viagem para discutir economia global e política internacional em lugares exóticos, vendo filmes de arte/cabeça, passeando por lugares calmos e paradisíacos, longe do barulho e dos traumas dos centros urbanos e periféricos. Misericórdia é visitar o Pinel, o Juqueri, visitar a sua rua e saber de seu bairro. É bom sofrer em Paris, mas reconstruir o espaço público mais próximo quem quer?

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - IV


Misericórdia não é bondade que se improvisa com validade vencida


O destinatário da Misericórdia é para o que sofre a poluição da cidade que dificulta a fluidez da respiração; os males da estufa de carbono, a água escassa das represas, a bala perdida, os que sofrem a poluição das notícias midiáticas e perdem a opinião própria, os que vivem grudados em celulares que truncam conversas e tiram a nossa inteireza; a revolta tensa das conversas dos que querem a pena de morte, os que sofrem a tormenta diária da imprensa impressa e 'wiliamborneada' nas telas da TV. Os destinatários da Misericórdia são os que têm que escutar constantes notícias ruins, malfazejas, apocalípticas, ou os diários boletins de sangue no Oriente Médio ou do sangue jorrando da cabeça e do peito baleado dos mendigos do centro da cidade. A Misericórdia dá conta e alento à estas criaturas imersas em coisas tão reais? Quebrar a indiferença já é um caminho, pois a Misericórdia é um caminho para conduzir o ser vivente para um outro lugar.

Misericórdia tem a vertente evangélica de dar de comer aos famintos, acolher peregrinos, cuidar dos enfermos, visitar encarcerados, enterrar os mortos, doar roupa para os nus vítimas dos descuidos. Misericórdia é tarefa e exercício de Amor e não desobrigação de um dever burocrático. Tem que ser expressão de algo mais profundo. A Misericórdia vem antes! A justiça aboliu a escravidão, mas a misericórdia, a indignação, a solidariedade para com a dor dos escravos chegou primeiro.

Diz Tagore, o nosso querido poeta e místico hindu: “A Misericórdia é um pássaro, que é o primeiro que, na noite, pressente a alvorada”.

Misericórdia complementa os valores que existem e supre os que inexistem. Misericórdia não é bondade que se improvisa com validade vencida e prazo para acabar, esta duração pré-fixada de campanhas; mas é a própria e constante bondade presente em toda visão e ação humana.

Vamos voltar a florir o vale de lágrimas antes que acabe o vale! Vamos diminuir a quantidade de lágrimas do vale e de toda terra. Vamos unir Misericórdia e Direitos Humanos que é exatamente não deixar faltar o básico para viver. Há Misericórdia no saneamento básico, no avanço econômico sustentável, na saúde e educação de qualidade, na igualdade de gênero, nas vivências participativas, na acolhida aos refugiados.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

É preciso voltar a Assis - III

Precisamos resgatar uma moral teológica para o mundo

É tempo de limpar a vida de egoísmo, estagnação, vaidade, presunção, negligência, falta de delicadeza, instabilidade, fé fragilizada.

O lema do Brasão Episcopal do Papa Francisco, quando era Arcebispo em Buenos Aires, era este: "Miserando atque elegendo”: olhando com amor o escolheu. Hoje temos que colocar este olhar de misericórdia e viver a misericórdia dentro de uma relação horizontal entre ética e ontologia: valores que definem o Ser. É o grande momento da Ontologia, Axiologia e Cosmologia.

A Misericórdia não é apenas uma lei moral ou ética, mas é uma virtude essencial para qualquer relacionamento. A Misericórdia, a Fraternidade e a Compaixão correm o risco de não serem entendidas se a comunidade mundial não for colocada em contato com a possibilidade de superar abismos enormes que nos separam, abismo culturais, abismos da intolerância, abismos da ausência de valores que impactam as diversas dimensões da vida. Diz o Papa Francisco: “Um dos graves problemas de nosso tempo é certamente a alterada relação com a vida”.

A Misericórdia é a grande virtude de Deus, e nós precisamos resgatar uma moral teológica para o mundo. O que temos é uma moral de Estado onde só existem direitos e não deveres, e isto cria dicotomias infernais. A Misericórdia, como compaixão e respeito pela vida das pessoas, é um esvaziar-se para dar sentido à lógica da vida de todo ser humano. É uma ética de alteridade e uma moral que respeita e acolhe a maneira como a vida de alguém deve se desenvolver.

A Misericórdia é o coração pulsante do Evangelho!  Diz nosso Papa Francisco: “A misericórdia de Deus é o coração pulsante do Evangelho, e que por meio dele deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa e de todas as criaturas”.

O destinatário da Misericórdia é, a partir desta convocação, qualquer criatura que habita a face da terra; aqueles que vivem a vida como ela se apresenta, com suas limitações, mas alegrando-se com a felicidade dos que possam ter uma possibilidade de vida melhor; criaturas humanas que estão na rua, na casa, no trabalho, na escola, no concerto, no hospital, na prisão, no quartel, na fábrica. O destinatário da Misericórdia é a pessoa que acorda e vai trabalhar, que sofre no trânsito, luta pelo lugar nos meios de transporte, que está na desesperança do desemprego ou na dúvida e na dívida, na droga e no álcool; os que precisam desenvolver esforços físicos, psicológicos ou mentais para enfrentar esse jogo de mil combinações do dia a dia.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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terça-feira, 22 de agosto de 2017

É preciso voltar a Assis - II

NÃO PODE HAVER FRATERNIDADE SEM MISERICÓRDIA


Há obediência em ouvir uma voz e vir. Há forte energia da presença fraterna. Há renovação de promessas e sentir a presença de sentir-se pertença. Há uma virtude vivida por Deus e seu Filho que nos inspira: a Misericórdia! Colocar o coração nos limites da fragilidade humana para descobrir a força de amar e cuidar. Não pode haver Fraternidade sem Misericórdia, diante dos desafios éticos e humanísticos do mundo contemporâneo.

Quando aconteceram os primeiros Capítulos das Esteiras, o momento celebrativo era Pentecostes e o fogo que estava nas cabeças vinha do incandescente amor que estava no coração. Não era fácil para eles em tempos de mudanças do feudalismo para a comuna, da eclesiologia decadente para a força dos Movimentos Penitenciais, um sentimento novo de Cortesia e Cordialidade em tempos rudes de guerras. Assis não era só videiras e girassóis, havia o expectro da guerra entre nobres e plebeus, entre o papa e o imperador entre a avareza e a desambição.

Mas hoje Assis é aqui, em tempos de guerras, tensões, violência urbana, governo paralelo do tráfico e um atentado moral que é o desgoverno ao qual estamos sujeitos. Assis é aqui em meio a surpreendentes atentados terroristas, depressão ganhando espaço como uma grande síndrome moderna;  a alienante busca de felicidade por meio das drogas; uma eclesiologia de freio de mão puxado, mas que começa a soltar-se aos poucos. Há 800 anos, um mendigo chamado Francisco,  adentra a estrutura eclesial e vai fazer um Papa sonhar; e hoje um Papa Francisco faz toda uma Igreja sonhar e anda soltando as amarras.

O Ano da Misericórdia, em 2016, nos provocou com uma rara onda positiva para repensar, viver e levar a Misericórdia. E do século XIII ao século XXI há segmentos do tempo que lembram para nós que todo tempo é tempo de salvação, e lembram para nós um tempo propício onde a salvação age com mais intensidade. Este é o nosso tempo! Viver a misericórdia é derramar qualidade num tempo de dramáticas desesperanças.

Voltar a Assis, no tempo de Clara e Francisco, é retomar o tempo de humanizar um Deus e divinizar o humano. Se não, como se apaixonar pela Encarnação? Vamos voltar como peregrinação, conversão e indulgência, levando a Misericórdia. Peregrinação andar pelos campos da realidade. Conversão como mudança de lugar. Indulgência como perdono, perdonare, per+dono, através dos dons, devolver os dons, apresentar-se com qualidade. Mais comunhão de vida. Não existe intercessão sem comunhão.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

“É preciso voltar a Assis!”


Não podemos voltar ao passado, mas podemos trazê-lo de volta até nós e atualizá-lo. Francisco de Assis e Clara de Assis não são santos do passado, mas sim do presente. Eles puxam a nossa história para a frente e apontam um futuro de esperança. Eles são santos da utopia e sonhos não envelhecem. Falta de esperança e desencanto no mundo não fazem parte da nossa proposta franciscana e clariana.

O Espelho da Misericórdia é olhar o mundo e sonhar, propor e concretizar uma humanidade possível, um mundo possível e um Deus possível. Assis, mais do que uma cidade é um lugar onde os espíritos sadios se encontram. Assis é aqui no Capítulo das Esteiras onde o ontem e o hoje se encontram para tecer propostas urgentes agora e para o amanhã de certezas.

Vamos voltar a Assis como Capítulo das Esteiras, vamos refazer I Fioretti 18, que narra para nós a inspiração do fato: “Grandes coisas prometemos, maiores nos são prometidas”. A palavra Capítulo tem sua raiz latina “caput”, isto é, cabeça. Mas num sentindo mais amplo, o que está na totalidade do nosso corpo, mente, espírito, alma e coração. “Caput” é o que está no mais alto dos nossos anseios, o que está em nosso centro, núcleo, no lugar mais elevado, naquilo que está acima, no mais importante.

Temos que dizer como o apóstolo Paulo que Cristo é a cabeça do Corpo Místico.  Caput, Capítulo, Capitão, Capital, a cidade mais importante, cabeceira, o lugar da nascente, um manancial forte e inesgotável. Caput, Capítulo, o que está nas nossas cabeças? Quem é a cabeça do grupo? Para São Francisco o Espírito Santo era a cabeça, o Ministro Geral da Ordem; para Clara, o Espelho era a fusão entre a Amada e o Amado; para a Fraternidade Primitiva, o Capítulo sabia gerar adequadamente obediência, pobreza e pureza de coração na medida certa, esta coisa linda de ter a cabeça afiadíssima com o Evangelho. Então, vamos voltar a Assis, a Santa Maria dos Anjos, e reunir milhares no mesmo espírito, sem falar banalidades, mas contar as maravilhas que o Senhor anda realizando através da força do comum. Como buscar inspiração? O que move um encontro assim? O que atrai para um encontro assim? A lógica da pobreza e da simplicidade justifica as Esteiras.

APONTAMENTOS DA PALESTRA NO CAPÍTULO DAS ESTEIRAS DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - APARECIDA - AGOSTO 2017

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FREI VITÓRIO MAZZUCO