quinta-feira, 23 de novembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – 2


Para meditar com Francisco de Assis é preciso mergulhar sem cessar e demorar-se bastante neste atributo divino: Deus é bom! E aqui voltamos novamente a Frei Constantino Koser, OFM: “Três letras apenas, mas que envolvem em si e evocam para Francisco toda a imensidade de mistérios sublimes e suaves, o seu Deus. O mais indefinível de todos os termos, o mais pleno de conteúdo, o de maior alcance, o mais divino, o mais semelhante ao próprio Deus Uno e Trino: Deus é bom. “Só Deus é bom” (Lc 18,19). “Deus caritas est”” (1Jo 4,16) (O Pensamento Franciscano, p.16).

“O Deus Uno e Trino no princípio parece um deserto, não porque o seja, mas porque a alma é incapaz de entender e de o amar. Aos poucos, à medida que o cavalheirismo, amparado e sobrenaturalizado pela graça divina, invadir o que parece deserto, ver-se-ão as flores, os encantos, a doçura, ver-se-á Deus Pai, Filho e Espírito Santo a abraçar divinamente suas criaturas, assemelhando-as mais e mais a Si mesmo em suavidade e bondade indizível. O conhecimento de Deus não dará trégua ao amor de Deus, e o amor de Deus não dará trégua ao conhecimento de Deus, estimulando a inteligência na busca do conhecimento cada vez mais profundo. Na medida em que aprofunda o conhecimento amoroso de Deus, nesta medida se conquista para Deus. Mas para que seja franciscano o modo de conhecer a Deus, é preciso que de fato o amor seja o incentivo da inteligência, o motivo e o estímulo de todas as horas e de todos os esforços” (O Pensamento Franciscano, p. 17).

Ao meditar o amor de Deus desafiava o amor: exigia insistentemente a resposta do amor. Sublime vocação das criaturas, de poderem amar a Deus. Privilégio excelso dos cavaleiros de Deus, de o poderem amar tão singularmente. Neste sentido, Francisco de Assis deu exemplo nas formas mais acabadas, mais completas, mais ardentes e mais sublimes. Clamava amargurado e feliz ao mesmo tempo pelo desejo desta felicidade do Amor: “É preciso amar muito a o Amor daquele que muito nos amou” (2Cel 196). Esta atitude radical de resposta de amor ao amor, ele expressou na Regra Não Bulada, capítulo 23: “Amemos todos de todo coração, de toda mente, e fortaleza, e com toda a inteligência, com todas as forças, com topo empenho, com todo afeto, do íntimo da alma, com todo o desejo e vontade ao Senhor Deus. Criou-nos e nos remiu, salvou-nos em pura misericórdia, cumulou-nos a nós (...) ingratos e tolos e maus, com todos os bens, e continua a cumular-nos. Nada pois, desejemos, nada queiramos, nada nos agrade ou alegre, a não ser o Criador, Redentor e Salvador nosso, o Deus único e verdadeiro que é o bem todo e verdadeiro, o supremo bem, o único bem.  É misericordioso e meigo e doce; Ele só é santo, justo, verdadeiro e reto; Ele só é benigno, inocente e casto; Ele de quem e por quem e em quem está todo perdão, toda graça, toda glória, de todos os penitentes e justos, de todos os santos que no céu conjuntamente se alegram. Quem nos dera que nós todos, em toda parte, em toda hora e em todos os tempos, todos os dias e continuamente creiamos, louvemos, bendigamos, glorifiquemos e sobreexaltemos; engrandeçamos e rendamos graças ao Deus Altíssimo e Supremo e Eterno, à Trindade e Unidade, ao Pai e ao Filho, ao Espírito Santo, ao Criador de todos. Para todos os que nele creem e nele esperam e o amam, é Ele sem princípio e sem fim, imutável, invisível, inenarrável, inefável, incompreensível, ininvestigável, bendito, louvável, glorioso, sobreexaltado, sublime e excelso, suave, amável, deleitoso e todo desejável mais que todas as coisas por todos os séculos sem fim. Amém”.

A meditação e oração em Francisco de Assis são palavras que jorram abundantemente do manancial de sua alma.

CONTINUA

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 21 de novembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – 1



Já me perguntaram mais do que uma vez: existe um método de oração ou meditação franciscana? O jeito franciscano não é de método, mas é mais viver em estado de oração e meditação. Menos técnica e mais vivência. Celano dizia que Francisco era um homem feito oração; e o modo como ele interage com todos os seres, o faz um natural meditativo sem método. Não encontramos nas Fontes um esquema tradicional explicitamente formulado. No cristianismo temos uma bela tradição como a meditação inaciana, o modo beneditino; ou então, meditação cristã que usa o modo oriental. Francisco é do século XIII e os métodos de meditação se fixaram no Ocidente a partir do século XV. O que escrevo aqui parte também de uma conversa com o saudoso Frei Alberto Beckhauser, OFM, com quem andei dialogando sobre isto.

Francisco de Assis, com sua personalidade individual plena de liberdade e uma consequente aversão a esquemas rígidos a serem aplicados a todos, não tem explicitamente uma meditação organizada e isto flui para a sua família franciscana. Mas se quisermos entender um caminho, um método, num sentido mais amplo, como modalidade, estilo ou atitude da alma que se empenha no “tu a Tu com Deus”, o que constitui uma meditação orante, podemos sim extrair, a partir da experiência de Francisco e seus seguidores, um exemplo e um ensinamento. Não existe um método franciscano de meditar ou orar, mas existe, sim, uma meditação orante que podemos qualificar como franciscana, pois a alma de Francisco não encontra obstáculos como a preocupação de exercício estudado e treinado.

Francisco de Assis não prescreveu aos seus discípulos formas e métodos de meditação e oração. Fez a sua experiência e deixou a seus frades a mais ampla liberdade, a fim de que cada um, exercendo suas faculdades pessoais, procurasse entender as inspirações do Senhor. Frei Alberto fala de um “cavalheirismo seráfico”, isto é, partir para a aventura de descobrir a bondade de Deus e o espetáculo de seu Amor em tudo o que existe. E para isto existe os caminhos da fraternidade conventual à fraternidade cósmica. Uma das paixões de Francisco era esconder-se sozinho nos bosques, frestas e grutas, separado de tudo e todos e ali entregar-se às reflexões sobre Deus e suas qualidades, sobretudo onde Ele é Belo e Bom. Ao conhecer o Criador conhecia-se cada vez mais como Criatura. Fazia um encontro entre Verdade e Realidade que vazava em preces breves como esta: “Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós, o Altíssimo Senhor do céu e da terra; e eu um miserável vermezinho vosso ínfimo servo!” Ou aquela prece de atravessar noite: “Meus Deus e meu tudo!”

Este seu jeito de ser Fraternidade fazia uma imersão na Fraternidade Divina, a Trindade Santa, e exclamava com o coração incontido: “Ó quão glorioso e santo e grande é ter no céu um Pai! Ó quão santo e belo e deleitável é ter no céu um Esposo. Ó quão santo, dileto, aprazível e humilde, tranquilizante e doce e amorável e sobre todas as coisas desejável é ter semelhante Irmão, que deu a vida pelas suas ovelhas!” (Carta aos Fiéis, 54-56). Diz Frei Constantino Koser, OFM: “A riqueza infinita de Deus Uno e Trino, do Mistério Inefável, fundamento da vida espiritual franciscana, se refrata de modos incontáveis na retina finita da inteligência e da vontade criada. Aspectos mil há em Deus, cada qual mais amável, cada qual mais digno de consideração, cada qual por si só suficiente para a plenitude da felicidade extática pelas eternidades sem fim. A mentalidade de cada qual se espelhará nos atributos a que der preferência em suas meditações e preces. São Francisco deu preferência aos atributos que, em conjunto, manifestavam Deus como um Soberano de cavaleiros:  a grandeza, a glória, a sublimidade, a delicadeza na suavidade, modos corteses e finos, a justiça, a misericórdia, mas, mais que tudo, a bondade “  (Koser, Constantino, O Pensamento Franciscano, 15-16).

Assim meditando, contemplando, orando e saboreando, Francisco de Assis mais e mais submergia em Deus e acabava sentindo-se assoberbado pela majestade divina e ao mesmo tempo sublime, terrível, suave e delicada. E quando em seus arroubos se sentia irremediavelmente perdido, mergulhava na consideração da bondade divina, degustando a palavra em todas as formas: “Onipotente, santíssimo, altíssimo e sumo Deus, todo o bem e sumo bem, toda graça, toda glória, toda honra, toda a bênção e todos os bens vos tributamos para sempre”

CONTINUA

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Francisco de Assis: esposo da pobreza


Faz parte da tradição cristã e franciscana unir Francisco de Assis a Senhora Dama Pobreza. Não é um tema fácil de se compreender enquanto não nos desvencilharmos de categorias sócio-econômicas. Por outro lado, pobres temos entre nós, e eles mexem com nossas consciências com sua angustiosa e extrema pobreza. Em nosso país, pátria do paradoxo, a opulência do alto da montanha domina a planície da miséria. Sonhos de grandeza e o pesadelo do não ter nada. Serviços cada vez mais caros e o luto dos que velam os mortos de uma vida que é banalizada.

Francisco de Assis experimentou os dois lados. Teve muito e se despojou de tudo. Sua pobreza foi opcional: ser pobre por amor para ser livre. Desapropriou-se para estar de um modo melhor com os que não tinham nada de próprio. De pai rico ele passou a ser irmão dos pobres. Ele mudou de lugar social para construir uma coerência espiritual incontestável. Sua família tinha uma rica tradição. Filho de Pedro Bernardone, Francisco tinha por nascença a linhagem de seu avô, Bernardo Mariconi, que era de Lucca, na Toscana, homem de comércio, com relações mercantis dentro e fora da Itália. Bernardo deixou a Toscana e veio morar na Úmbria e deixou para seu único filho, Pedro Bernardone, seu patrimônio, o atrativo pelos negócios, pelo lucro, o fascínio da riqueza e a força do poder. Tudo isto Pedro herdou de Bernardo, depois passou para Francisco que renunciou esta história de ser rico.

Adiantaria ter muito e ter um pai fora de casa, que por causa dos negócios era um mercador ausente do lar? Francisco quer a riqueza do Pai que traz tudo para perto e não deixa ninguém no isolamento. Seu pai biológico deu todos os bens materiais que ele podia sonhar como jovem. Seu Pai do Céu deu-lhe a felicidade que preenchia o seu coração mais do que dinheiro, roupa, cavalo e festas. Seu pai, Pedro Bernardone, deu-lhe sonho de pai, Francisco queria um sonho de Amor Maior além das fronteiras de uma loja e tinturaria, marca registrada de sua família em Assis.

Francisco descobriu um tesouro inestimável: o Evangelho. Descobriu ali as pérolas preciosas da Palavra. Pérolas não são apenas uso, mas são contemplação e identificação. Francisco buscou a pérola rara do Reino. Ao ler a Boa Nova descobriu a Identidade Pobre do Deus Encarnado. Viu que em Jesus Cristo a Pobreza era uma opção sagrada. Não ter nada e ser tudo. Apaixonou-se por esta proposta e casou com ela. Desposou a Senhora Dama Pobreza, a alma do Deus Humilde. Aprendeu com ela que um Deus não retém nada para si, mas tudo dá. Casou com o sonho de Deus, com a presença de Deus, com o Amor de Deus. E este jeito de Deus era de total renúncia de apegos. A questão de Francisco não era material, mas espiritual. Fez uma opção pela Identidade Sagrada de um Deus que se apresentou ao mundo no total despojamento. Depois, no decorrer de sua vida, não ter nada de próprio foi apenas a liberdade de viver e identificar-se com o modo como Deus ama.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, UM JOVEM PARA OS JOVENS


Neste outubro de 2017, em feriado prolongado, estive num Encontro de Jovens em Santo Amaro da Imperatriz com o jovem Francisco de Assis. E fiquei pensando que em cidades escondidas, entre centros maiores, acontecem coisas grandiosas. Perugia e Assis, Florianópolis e Comunidade São Francisco de Assis. No painel do salão a frase: “Loucos como Francisco”, e eu pensando, que aqueles mais de 60 jovens estavam indo na contramão do consenso: perto da praia, sol e mar; foram ali para aprender, conviver e rezar.

A cidade de Assis viu aquele jovem, que era orgulho de seu pai e mãe, andar pelas ruas como um líder, elegante, esbanjando dinheiro e simpatia. Trabalhava com o pai e gastava o que ganhava. Uma alma boa, espírito justo, coração cheio de bondade. Tinha o modo normal dos jovens de então: amizades, alegria, festa, taberna, serenata e sonhos de conquistas, e a brilhante carreira das armas. Mesmo gastando muito nas farras com seus amigos, Francisco tinha uma sensibilidade para com os que vinham pedir esmolas.

A cidade de Santo Amaro da Imperatriz viu o espírito de Assis reunir jovens do Sul, com ânimo, iniciativa, vontade, criatividade, liderança e aquela disposição de saber com um jovem de Assis como se anda neste país e pelo mundo com jeito de devolver sentidos. Suas famílias orgulhosas de ver filhos aproveitando bem o tempo, deixaram que seus filhos fossem até ali e eles foram recebidos em casas de outras famílias com abraços acolhedores de mudar o mundo. Jovem que tem ideal abre portas nunca vistas, são filhos e filhas de uma grande família de uma humanidade que ainda acredita.

Assis e Perugia tinham uma rivalidade entre si. Nobres e plebeus, vez ou outra, entravam em combate. Francisco de Assis vai para a luta e é preso. Na cadeia vence as grades com bom humor, mas também com momentos de tristeza, melancolia e incertezas.  Experimenta a doença. Dizem que vai ser honrado pelo mundo inteiro. Sonha com um palácio cheio de armas. Tem que tomar decisões de servir o Senhor ou o servo. Volta para a sua terra. Francisco está estranho como um apaixonado.


Santo Amaro da Imperatriz viu aqueles jovens reproduzirem a vida de Francisco de Assis num teatro sugestivo feito com a seriedade daqueles que sabiam que não podiam brincar coma vida de um mito, místico, modelo e santo. As famosas serenatas na praça de Assis enchiam um salão de música com som e ritmo de rock, danças e alegria no rosto. Nenhuma disputa entre si. Todas as classes sociais estavam ali representadas, sobretudo aqueles que tinham as mãos calejadas pelo trabalho na terra. Muitos sonhos e dinâmicas representativas. Camisetas sugestivas e gente enamorada de seu jeito. Nenhuma disputa, mas muita busca.

Assim como Francisco de Assis fez estrada, entrou em frestas e florestas, descobriu lugares, silenciou e cantou, dividiu e reuniu; aqueles jovens meditaram a Encarnação: Deus vem morar na terra dos humanos tomando jeito de criança para dar jeito na humanidade. Aqueles jovens refletiram a Cruz, o lugar do Amor capaz de tudo, capaz de levar até o fim uma escolha: um Deus que deixa marcas. Aqueles jovens moldaram a massa do pão, saborearam a Eucaristia e sentiram o gosto de um Deus vivendo inteiro em cada pedaço, sangue único correndo na veia de todos.

Em Santo Amaro da Imperatriz os jovens recriaram outra Assis e partilharam ideias, escutaram profundamente, silenciaram, fizeram preces marcantes e reconstruíram certezas.  Sonho de Francisco, sonho de Clara, sonho de Diego, de Laís, de Mariana, de Leão, Gabriel, Rufino, Cícero, Edson, Ângelo e Ângela, e tantos que participaram de uma experiência já feita em muitas Caminhadas, Missões, Acampamento, e agora mais uma: ajeitar no canto da cidade que pulsa as energias de um circuitos de águas, um eremitério, um retiro, um momento forte de formação, e beber na Fonte Pura do Evangelho. Reverência a estes jovens!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS – ENTRE HISTÓRIA E A MEMÓRIA

Constantemente surgem livros sobre São Francisco de Assis. Indico para os que amam conhecer Francisco de Assis este livro de André Vauchez, Francisco de Assis. Entre História e Memória, Martins Fontes, SP e Instituto Piaget, RS, 2013.  O autor é um grande historiador, membro da Escola Francesa de Roma, é especialista sobre santidade e espiritualidade medievais. Esta sua premiada biografia sobre São Francisco de Assis tem forte fundamentação histórica e é exatamente a perspectiva histórica com que aborda São Francisco que faz o diferencial desta obra. O autor pesquisou por 30 anos, período em que viveu na Itália, os textos franciscanos e as biografias franciscanas. Como diz a quarta capa desta obra: “André Vauchez mostra a novidade e a originalidade da mensagem franciscana, a sua nova relação com a Sagrada Escritura, a sua ligação a Deus, à natureza e ao mundo”.

O autor passa pela bibliografia e pela cronologia e pelo Testamento de Francisco, que são obras essenciais para a fundamentação histórica. Diz o texto: "Uma obra que não teme reconhecer as dificuldades e os afastamentos em relação ao projeto inicial do Santo. Os frades menores, no seu conjunto e desde a sua origem, jamais traíram ou abandonaram a sua mensagem. Nenhuma Ordem religiosa conseguiu manter com seu fundador uma relação afetiva tão forte e escutar as suas palavras durante tantos séculos”.

Esta obra tem o mérito de ir à riqueza das Fontes Franciscanas. Muito se escreve sobre ele, mas em geral cada autor ou autora juga conhecê-lo de modo suficiente para interpretá-lo a seu modo. Assim, Francisco de Assis é visto sob vários aspectos: asceta, louco, poeta, estigmatizado, fundador de uma grande Ordem religiosa, modelo de ortodoxia católica, reformador da Igreja, herói romântico, “detentor de um cristianismo evangélico e místico esmagado pela instituição eclesiástica”, defensor dos pobres, promotor da paz entre os seres humanos e religiões, apaixonado pela natureza é o patrono da ecologia, santo ecumênico. Então, qual é o Francisco verdadeiro? Vamos ler mais esta obra! Ela traz respostas.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A PORCIÚNCULA DE SOROCABA


Meus confrades de Sorocaba, SP, levaram a sério a inspiração original de nosso Pai São Francisco: é preciso reconstruir a casa! E recriaram no pátio do Convento local uma réplica da Porciúncula. Bom Jesus dos Aflitos agora tem também a consolação de Nossa Senhora dos Anjos. A Porciúncula, onde estiver é manancial, este lugar fontal   da mística franciscana, um ícone do berço da Fraternidade. De Assis a Sorocaba é preciso lembrar a vida comum, o amor mútuo, o espaço da prece, da reflexão, do silêncio. É eremo, isto é, espaço para encher-se de graça e bênçãos e reiniciar novamente o caminho.

Se Assis é a capital do espírito, a Porciúncula é lugar necessário, uma luz sobre o caminho. Se você não vai à Assis, o fascínio da Porciúncula vem até você em Sorocaba. A mensagem pulsante do Evangelho, alegria, serenidade, simplicidade, fidelidade, pobreza...tem lugar. A Porciúncula original foi edificada no século X, no ano de 1045. Pertencia aos monges beneditinos do Mosteiro do Monte Subásio, que ali criaram uma pequena porção de santuário, para ajudar o povo que não podia ir nas peregrinações nos santuários mais distantes, podiam fazer a sua desobriga no lugar mais próximo. Santuário é o lugar sagrado onde a presença de Deus se manifesta, o mistério presente da divindade determinando o lugar do culto. No século XIII, os beneditinos doaram a Porciúncula a Francisco de Assis que a reconstruiu e fez um grande encontro entre passado e presente. Na Porciúncula viveu Francisco, os frades primitivos, ali passou Clara, ali morreu o Poverello, ali aconteceram os Capítulos das Esteiras.

A Porciúncula de Sorocaba nos diz que Clara e Francisco continuam mais vivos que nunca e que a sua escolha de Amor atravessa o tempo e marca definitivamente um lugar no mundo. Na Porciúncula a Fraternidade se faz encontro, cresce, contagia e se comunica. Como diz Tomás de Celano: “Em qualquer lugar, no entanto, conheceu por experiência que o lugar de Santa Maria da Porciúncula era repleto de mais copiosa graça e frequentado pela visitação dos espíritos celestes. Por isso, dizia muitas vezes aos irmãos: "Cuidai, filhos, para nunca deixardes este lugar. Se fordes expulsos por uma parte, entrai de novo por outra; pois este lugar é verdadeiramente santo e habitação de Deus. Aqui quando éramos poucos, o Altíssimo nos aumentou; aqui, com a luz de sua sabedoria, ele iluminou os corações de seus pobres; aqui, com o fogo de seu amor, inflamou as nossa vontades. Quem rezar aqui com coração devoto obterá o que pedir” (1Cel 106,2-6).


Em 1210, Francisco pede ao Bispo de Assis e depois aos Cônegos de São Rufino alguma igrejinha para cuidar. Não obteve resposta. Vai então ao Abade do Mosteiro Beneditino, Dom Teobaldo, e este, com o consenso da comunidade monacal, entrega a Porciúncula para uso e moradia dos frades, e pedem apenas uma condição: se o grupo de Francisco crescer, que a Porciúncula seja a Casa Mãe. Dom recebido, dom compartilhado. A igrejinha reconstruída sob o sólido alicerce da Pobreza ganha um sinal: por graça e gartidão com um vaso cheio de óleo ao bem feito pelos beneditinos, há o gesto da retribuição, cada ano, os frades mandavam aos monges um cesto cheio de peixes e os monges agradeciam com um vaso cheio de óleo ( 3Comp 56 e LP 8 ).

E assim a Porciúncula vai se tornando um ícone eterno da experiência primitiva do amor fraterno, do trabalho com as próprias mãos, da proximidade com bosques e leprosários, da pequena cela como moradia, dos primeiro encontro com o Evangelho, da presença dos primeiros companheiros, lugar de preparar-se e partir para a missão. No dia 19 de março de 1212 chega ali a nobre jovem Clara de Favarone. Em Julho de 1216, Francisco consegue do Papa Honório II a Indulgência da Porciúncula ou a Indulgência do Perdão da Porciúncula. Ali Clara e Francisco comum juntos num luminoso banquete espiritual (Fior 15). A amiga especial de Francisco Jacoba de Settesoli, traz o doce conforto na hora de sua morte (3Cel 37-39). A Irmã Morte vem buscar Francisco.

No século XIII, ali estavam os irmãos Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani e Egídio, prontos para sair em missão. No século XXI, aos 08 de setembro de 2017, oito séculos depois, os irmãos Gilberto Piscitelli, Benedito Gonçalves e André Becker, em Sorocaba, nos ensinam que todos temos que ser criativos em fazer renascer a simplicidade primitiva. E refizeram o ideal da Porciúncula: chegar, partir, enviar, sair, regressar, fortalecer, orar, num momento privilegiado de encontro. Em louvor de Cristo, Amém!

Veja mais imagens da Porciúncula de Sorocaba

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E SEU MÊS DE FESTA


Tem a celebração do Transitus, a Missa Festiva, o tríduo, a novena, o teatro, a semana franciscana, o mês franciscano, as exposições, momentos litúrgicos, festivos, litero-musicais, bênção dos animais, palestras, artigos e sermões, distribuição de taus, chaveiros, santinhos, frades de hábito, programas na rádio, televisão, enfim, Francisco de Assis é uma Festa! Um pobre celebrado com alto nível de intensidade litúrgica, espiritual, cultural e folclórica.

Celebrar Francisco é exaltar uma personalidade que atravessa as fronteiras da religião. Todos querem dizer quem ele é, porque ser ele mesmo foi a sua marca registrada. Num mundo onde nem mais sabemos quem somos nós, Francisco de Assis é revelador de uma identidade. A festa de São Francisco e o mês franciscano de outubro mexem com consciências, abala instituições, reencanta carismas e convoca criatividades.

Celebrar São Francisco é mostrar que desde o Concílio de Latrão até o Vaticano II ele é uma novidade necessária. Sozinho ele é um movimento vivo, com a força da Fraternidade ele é a revolução constante. E qual a sua força de mudança? Em primeiro lugar porque Jesus Cristo passa a ser para ele a fusão de alma, coração, vontade e projeto, e núpcias.  Em segundo lugar, o Evangelho sai do texto e entra no contexto de ser alguém numa palavra que anda e convive, simbiose entre espírito e letra.

Celebrar São Francisco é ter aquela vontade de ser eremita e andarilho. Elegante e mendigo. Desapegado e livre. Rico de amizades e pobre de materialidade. Este jeito de aprender a ficar só em meio a todas as criaturas e formar com elas um novo jeito de ser irmão e irmã que lança a solidão para a imensidão do estar junto. Ir à guerra sem pegar em armas. Ir para o diferente e dizer que há uma verdade no lado de lá.

Celebrar São Francisco é viver leve e solto em meio à Regra de Vida e ter este jeito de organizar tudo a partir da intuição. Com ele anarquia e democracia brincam de roda e instauram uma nova profecia. Celebrar São Francisco é mandar vir o doce preferido na hora da morte, reunir as pessoas amadas e cantar. Improvisar um coro, ensaiado ou não, e deixar a melodia tomar conta do ambiente: Ó Alma Santíssima que atravessa para a eternidade reunindo cidadãos e Anjos, e a Trindade dando boas vindas dizendo com a Irmandade: permanece conosco para sempre!

Celebrar o mês franciscano é escutar Francisco de Assis dizendo para todos: “Eu fiz o que é meu dever; que Cristo vos ensine o que é vosso!” (2Cel 214,9).

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 26 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - Final

Misericórdia é dar o coração aos mais fragilizados

Misericórdia é Vida Fraterna! Nós não somos apenas um ajuntamento de pessoas, mas uma consanguinidade espiritual que nos vincula uns aos outros. A Fraternidade nos conecta. Somos todos do mesmo DNA de Clara e Francisco, e este sangue que corre em nossas veias tem uma poderosa implicação humanística: compartilhamos uma mesma natureza humana e divina. Cor e miseratio! Misericórdia é chave para abrir e entrar na porta santa do Reino.

“O Amor de Deus é a flor e a Misericórdia o fruto” (Santa Faustina Kowalska). O fruto do Amor é a Misericórdia, tudo o que é Amor é Misericórdia. Misericórdia não é atirar pedras, mas estender as mãos; fazer pontes e não exclusão, atar feridas dos necessitados, levar o errado a enxergar o erro.

Misericórdia é dar o coração aos mais fragilizados (miseris cor dare). O Papa Francisco, inspirado em Santo Agostinho, coloca dois aspectos da Misericórdia: 1. O Coração é o centro 2. Uma situação miserável, seja material ou espiritual. A Misericórdia, que tem a sua fonte no Amor, é um Amor feito de Coração, exercido em presença de sofrimento ou desordem.

“Há o amor de pai e filho, o amor de casal, o amor de irmãos e irmãs de sangue, o amor de amizade, o amor de fraternidade, o amor de civismo, o amor de grupo, e tantos tipos de amor. Cada estilo de amor demanda e desperta na psique um estado peculiar de ação e sensação. Quando exerço o amor em direção a alguém em situação penosa, emito uma forma típica da alma, chamada Misericórdia. Este alguém em dificuldade posso ser eu, e aí há a misericórdia para comigo mesmo e pode ser o outro ou a outra, e aí a misericórdia para com o próximo.

Se eu amo a pessoa por quem estou apaixonado ou me deleito numa ocorrência de beleza e bondade, simplesmente amo. Mas se me dobro sobre alguém no buraco e lhe estendo o braço puxando-o para a situação normal, esse meu ato gratuito de restabelecimento da norma assume o nome de Misericórdia ou Amor Misericordioso. Para além da afetividade e da espiritualidade, a misericórdia tem a ver com o conceito físico e científico da ordem cósmica.

Digamos que a lei básica do universo é a ordem, ou seja, a união, a relação, numa palavra: o Amor. De outra forma, o universo se desintegraria. Tal ordem macrocósmica, que parte do pó atômico e chega às galáxias se, se reverbera em cada um dos seres existentes, chamados microcosmos, incluindo nestes o microcosmo humano que somos nós. Tal ordem ou união nada mais é que o Amor. Os conceitos de amor-união-relação-ordem se interpenetram”  (Marchionni Antônio, “A Misericórdia é Lei do Cosmo”, in Fraternidade e Misericórdia- Um olhar a partir da justiça e do amor, Cultor de Livros, São Paulo, 2016, p. 15).

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - V


 Francisco e Clara de Assis não venderam sonhos

Não há misericórdia em lutas ideológicas que chegam à violência. Não há misericórdia se não sair para as periferias existenciais que são mais do que bairro, rua, espaço de cidade ou campo, centros urbanos ou lugares de tensões. A periferia existencial é o vazio da vida, a falta de sonho, de utopias, de esperanças que está nestes lugares e nos corações das pessoas. Tem muita gente que tem mansão confortável, cheia de móveis luxuosos, freezers cheios de comida, dinheiro no banco e no luxo, mas sem felicidade ou projetos para dar a vida um sentido maior. Tem tudo, mas precisam de vícios e experiências traumáticas e excesso de antidepressivo. Há periferia existencial na pobreza material dentro das periferias materiais.

Tem que haver mais misericórdia nas Igrejas e aqui vamos incluir a nossa; pois religião não pode ser um produto bonito e bem embalado para ser divulgado e vendido. Francisco e Clara de Assis não venderam sonhos, nem esperança, nem Deus, nem religião. Nossas liturgias não podem ser um remédio psicotrópico relaxante, cheias de louvores emocionais e ardor neomísticos, mas com pouco Amor pela doutrina social da Igreja e pela mística do Evangelho que deseja conduzir o ser humano a uma experiência de esperança profunda e de uma humanização profunda. Menos gospel e mais proximidade com o doente, com a viúva, criança, idoso e portadores de necessidades especiais.

Somos evangelizadores, discípulos e missionários da Misericórdia e não cidadãos turistas que fazem viagem para discutir economia global e política internacional em lugares exóticos, vendo filmes de arte/cabeça, passeando por lugares calmos e paradisíacos, longe do barulho e dos traumas dos centros urbanos e periféricos. Misericórdia é visitar o Pinel, o Juqueri, visitar a sua rua e saber de seu bairro. É bom sofrer em Paris, mas reconstruir o espaço público mais próximo quem quer?

CONTINUAÇÃO DOS APONTAMENTOS DA PALESTRA NO CAPÍTULO DAS ESTEIRAS DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - APARECIDA - AGOSTO 2017

FREI VITÓRIO MAZZUCO

CONTINUA

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - IV


Misericórdia não é bondade que se improvisa com validade vencida


O destinatário da Misericórdia é para o que sofre a poluição da cidade que dificulta a fluidez da respiração; os males da estufa de carbono, a água escassa das represas, a bala perdida, os que sofrem a poluição das notícias midiáticas e perdem a opinião própria, os que vivem grudados em celulares que truncam conversas e tiram a nossa inteireza; a revolta tensa das conversas dos que querem a pena de morte, os que sofrem a tormenta diária da imprensa impressa e 'wiliamborneada' nas telas da TV. Os destinatários da Misericórdia são os que têm que escutar constantes notícias ruins, malfazejas, apocalípticas, ou os diários boletins de sangue no Oriente Médio ou do sangue jorrando da cabeça e do peito baleado dos mendigos do centro da cidade. A Misericórdia dá conta e alento à estas criaturas imersas em coisas tão reais? Quebrar a indiferença já é um caminho, pois a Misericórdia é um caminho para conduzir o ser vivente para um outro lugar.

Misericórdia tem a vertente evangélica de dar de comer aos famintos, acolher peregrinos, cuidar dos enfermos, visitar encarcerados, enterrar os mortos, doar roupa para os nus vítimas dos descuidos. Misericórdia é tarefa e exercício de Amor e não desobrigação de um dever burocrático. Tem que ser expressão de algo mais profundo. A Misericórdia vem antes! A justiça aboliu a escravidão, mas a misericórdia, a indignação, a solidariedade para com a dor dos escravos chegou primeiro.

Diz Tagore, o nosso querido poeta e místico hindu: “A Misericórdia é um pássaro, que é o primeiro que, na noite, pressente a alvorada”.

Misericórdia complementa os valores que existem e supre os que inexistem. Misericórdia não é bondade que se improvisa com validade vencida e prazo para acabar, esta duração pré-fixada de campanhas; mas é a própria e constante bondade presente em toda visão e ação humana.

Vamos voltar a florir o vale de lágrimas antes que acabe o vale! Vamos diminuir a quantidade de lágrimas do vale e de toda terra. Vamos unir Misericórdia e Direitos Humanos que é exatamente não deixar faltar o básico para viver. Há Misericórdia no saneamento básico, no avanço econômico sustentável, na saúde e educação de qualidade, na igualdade de gênero, nas vivências participativas, na acolhida aos refugiados.

CONTINUAÇÃO DOS APONTAMENTOS DA PALESTRA NO CAPÍTULO DAS ESTEIRAS DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - APARECIDA - AGOSTO 2017

FREI VITÓRIO MAZZUCO

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